1 de janeiro de 2014

A problemática das gerações


Belmira Magalhães, coordenadora do Núcleo da Condição Feminina da Universidade Federal de Alagoas, discute a necessidade de se repensar as gerações, e não considerar o idoso como um doente. “Para cada época de geração, idade geracional, você terá dificuldade de resolver problemas facilmente. E a gente tem que olhar as gerações de modo diferente, o que não significa uma valorização de melhor a pior, mas de condições diferentes em relação a trabalho”, veja a entrevista abaixo:


Qual é a problemática entre as gerações para quem está ingressando no serviço e para quem está se aposentando?
BELMIRA MAGALHÃES:
A perspectiva é bastante diferente de quem está se aposentando daquele que não está se aposentando. No serviço público, tem uma questão específica que é a estabilidade, que no setor privado não tem. E a gente tem que olhar as gerações de modo diferente, o que não significa uma valorização de melhor a pior, mas de condições diferentes em relação ao trabalho. Isso é muito difícil de ser visto nas empresas de uma maneira geral, mas também no serviço público porque, na verdade, a população envelhece, cada vez mais, mas a sociedade não está equipada para este tipo de envelhecimento. Antigamente, a pessoa contribuía com a previdência e morria antes de se aposentar. Poucas pessoas gozavam da aposentadoria. E agora você tem um grande contingente de pessoas que se aposentam. A tendência disso é crescer. Essas perspectivas também estão se dando hoje no trabalho. As pessoas passam mais tempo no trabalho. A própria legislação aumentou o tempo de serviço, como as pessoas estão envelhecendo mais tarde, ficando inábil para o trabalho mais tarde. Em algumas funções, as pessoas estão decidindo ficar no trabalho, a exemplo dos professores. É uma profissão que a experiência é fundamental.


Os servidores mais antigos se envolvem mais com as questões sociais do que os mais jovens, por quê?
BELMIRA MAGALHÃES:
As pessoas mais antigas têm um envolvimento social muito mais do que com seus empregos. Hoje, até porque empregos estão cada vez mais aviltantes, a falta de emprego é enorme, as pessoas estão entrando para cumprir o seu dever, cumprir seu horário, isso é em qualquer área. A não ser que isso vá render honorário, gratificação. O sindicato de professores hoje, na maioria das universidades, passa até seis anos sem ter uma assembleia. Marca a assembleia e não tem quorum. Lógico que os professores estão cheios de problemas, só que os problemas estão sendo resolvidos individualmente e não coletivos. É o professor que consegue uma bolsa porque está no curso à distância, trabalha fora.


Coletivamente não se luta, até porque a luta tem sido muito inglória, e o que vem como resposta é sempre muito pouco. O servidor jovem acha que tem que viver aquele momento, que é muito próprio de toda a ideologia da sociedade. É o consumo, é aquele momento. A maioria das pessoas tem o trabalho como uma forma de sobrevivência. A idéia básica é fazer o mínimo necessário e ganhar o dinheiro ou então, fazer mais que o necessário se eu tiver pleiteando subir na carreira, ter vantagens. Agora isso é próprio de uma sociedade capitalista.


Como devemos olhar para o idoso?
BELMIRA MAGALHÃES:
Se for olhar no dicionário o que é o velho veremos que é um traste, uma coisa que se jogou fora, também pessoa de idade avançada. Por isso é interessante um olhar diferente para os trabalhadores dependendo da sua geração. Hoje, que estou com mais de 60 anos, prefiro ir mais vezes a universidade a dar aulas seguidas. Prefiro assim porque me canso mais. Em compensação, tenho experiência que os novatos não têm.


Eles não têm porque mão são ruins, mas porque não viveram o suficiente para ter. O que destaco é o olhar diferenciado para as gerações, e não considerar o velho como um doente. Para cada época de geração, idade geracional, você terá dificuldade de resolver problemas facilmente. Se você manda uma criança pular, ela vai pular a noite toda, mas ela tem deficiência também, tem que ter uma alimentação adequada, cuidados, e isso não significa doença, mas uma coisa normal daquela faixa etária. O adulto jovem, ele tem uma série de coisas, mas precisa de alimentação diferenciada, e o velho também, mas não porque ele é doente, é porque está em outra fase geracional. É preciso trabalhar isso, encarar com um olhar diferente. Outra coisa é que em hipótese nenhuma se deve infantilizar o idoso. O idoso não é uma criança. Ele não tem que fazer as coisas que a criança faz. E é comum se deparar que, alguns programas que trabalham com idosos, têm a tendência de infantilizar o idoso com brincadeira de rodas. Não! O idoso tem que ter outras coisas na atividade dele. Já tem estudos na UFRJ e na USP que mostram os idosos como contadores de história para jovens e para crianças. É, evidentemente, que a maioria dos estudos está calcada em cima do velho idoso. Atualmente, as pessoas envelheceram e continuam trabalhando, ou se aposentam em um emprego e vão trabalhar em outro. Todas as áreas dizem que você pode trabalhar mais tarde se estiver bem. É lógico que é um grau de exploração de que temos de ficar de olho.


 É comum no judiciário a imposição de metas, consequentemente, o assédio moral,e como ficam os servidores mais antigos?
BELMIRA MAGALHÃES:
Isso é uma problemática mais complicada. As normas capitalistas nas empresas públicas e o envelhecimento da população vão ter que ser tratado de alguma forma, a única coisa que o governo acena é o tempo de serviço. Como vai trabalhar bem o velho se não trabalhamos bem ele na ativa, isso é uma falácia do Estatuto do Idoso.


O aviltamento do trabalho é cada vez maior, e com mais crise, mais aviltado fica o trabalho. O capitalismo cria uma categoria de trabalhadores privilegiados. As multinacionais têm a capacidade de tirar o raciocínio do trabalhador, mas dá o carro, a casa, enquanto ele está empregado sem estabilidade nenhuma.


Fonte: Grifo/Sindjus-AL

1 de janeiro de 2014

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